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14/03/2017

Pausa para Aproveitarmos o Por-do-Sol


Ele dizia que eu era a parte singela da vida dele; que tudo era sempre complicado e corrido, mas que quando estava comigo, era como se eu tivesse um tipo de poder de desacelerar o tempo e que ele podia se sentir mais confortável pra aproveitar de fato, o próprio respirar. Bom, sempre achei isso uma declaração linda de amor, mas nunca levei a sério. Sempre pensei também que ele dizia isso simplesmente porque cresceu comigo e me conhecia tão bem... quero dizer, eu sempre fui alguém em quem ele confiou e se sentiu muito a vontade. 
Mas um dia, como tantos outros parecidos como aquele, mas um dia em específico em que eu estava cansada mentalmente, com a cabeça cheia... Ele apareceu de surpresa na minha casa. 

-O que você está fazendo aqui hoje? -Eu perguntei estranhando já que não era sexta de filme e nem sábado ou domingo.
-Não posso te visitar numa quarta feira? -Ele se recostou na porta do meu quarto. -Sua mãe disse que você está precisando sair um pouquinho. Quer melhor companhia que eu mesmo?! -Ele sorriu pra mim.
-Minha mãe? 
-Eu liguei pra falar com você. Depois de mandar umas 100 mensagens e te ligar umas 5 vezes, liguei pra sua casa. Pelo menos sua mãe não me deixou no vácuo. -Ele se fez de coitadinho
-Não posso sair... -Eu disse pensando nas milhões de coisas que tinha que estudar.
-Eu sei, eu sei. Aposto que avançou umas cinco páginas do TCC e conseguiu dar uma revisada nas matérias. Ah, e ainda fez o exercício de idiomas. -Ele foi irônico, pois sabia exatamente minha dinâmica para estudos. E com certeza não era aquela.
Eu apenas sorri de lado. 
-Eu vou esperar você se ajeitar. Vou te levar pra respirar ar puro. -Ele piscou e desencostou da porta.
-Quem é você? Meu namorado? - Eu estava impressionada com a convicção em cuidar de mim que ele vinha tendo de uns tempos.
-Não, mas quem sabe? Quem sabe seu namorado tenha ciumes de mim?! Seria ótimo. 
-Não mesmo! -Eu sorri e fechei a porta. 
-Não é pra demorar, não vamos ao Oscar. -Ouvi ele gritar do outro lado da porta. 
-Porque eu realmente sou dessas... -Ironizei ja que não sou de me arrumar tanto.

Eu só coloquei meu jeans, vesti meu moleton vermelho e meu tênis de todo dia.  Ele me levou pra uma praia que tem na cidade onde do outro lado da orla é repleta de restaurantes que sempre frequentamos em comemoração de aniversários de nossos amigos. Na beira do caçadão da praia também tinha vários carros que vendiam cachorros-quente... É uma praia tranquila, raramente usada para banho. E a noite, sempre tem alguém gente caminhando pela orla. Mas era final de tardinha ainda. O movimento noturno por causa dos restaurantes ainda não existia, nem os carros de cachorro-quente ainda haviam chegado. Tinha apenas pessoas correndo ou passeando pelo calçadão.

Ele estacionou o carro e disse "Bora lá!" Eu sabia que ele não era de falar isso, mas estava usando meu jargão para me deixar mais a vontade. Já com os pés na areia, caminhando, ele me perguntou:

-Porque você parece tensa?
-Você sabe, eu não tenho conseguido me concentrar o suficiente com os estudos. Estou sem emprego... Não sei se estou fazendo meu melhor pra ajudar minha mãe.
-Não... Agora! Você está tensa, como se não me conhecesse. -Ele me sacudiu. -Tá presa, não parece você.
-Ah... -Eu fiquei mais tensa ainda por entender sobre o que ele falava. -Não estou nada!
-Pára né? Você acha que não conheço a linguagem do seu corpo?

Olhei pra ele imediatamente com uma sobrancelha levantada. Do que ele estava falando? Soou muito estranho aquela frase. Dei-lhe um tapa no braço. Mas disse rindo.

-Do que você está falando? Eu estou normal. - Dei passos mais largos pra ficar um pouco a frente e me recuperar da vergonha que por alguma razão eu estava sentindo.

Conhecendo ele como conheço, é quase certo que ele tenha olhado pra baixo e sorrido de mãos nos bolsos antes de me acompanhar. Ele não era besta, ambos sabíamos que aquela frase ficou mesmo estranha para o tipo de relação que tínhamos, mas até ele só reparou nos vários sentidos possíveis para aquela frase depois que já tinha dito. Mas não voltamos nesse assunto naquele dia.

Eu estava mesmo tensa ou envergonhada, mas não sabia explicar o porquê. Hoje eu sei. Naquele dia eu tinha, em fração de segundos, relembrado todos os momentos que ele cuidou de mim. Do como ele sempre me protegeu e me ajudou. No início como um grande cavalheiro, mesmo criança. Depois como um amigo e irmão mais velho chato. Mas não só a compilação de todas essas memórias, mas também a pergunta que fiz não sei porque razão: "Quem é você, meu namorado?" Em algum lugar do meu subconsciente já pensava que talvez eu o visse mais do que como irmão mais velho ou amigo?

Admito que ele estava agindo normalmente comigo, mas por vê-lo com outros olhos naquele dia, eu me sentia como em um encontro planejado por alguém apaixonado secretamente por mim. Sim, uma cabeça feminina pode viajar muito a esse ponto. Por isso, respirei fundo ao me sentar do lado dele na areia, de frente para o mar e me convencer de que eu estava exagerando. Respirei fundo mais uma vez e aproveitei o espetáculo que estava pra começar. Não falei mais nada e ele também não.

Ficamos em silêncio por um tempinho só aproveitando o por do sol naquele início de inverno. Nós não tinhamos nenhum problema em ficar em silêncio juntos. Muitas vezes fazíamos isso e as vezes até preferíamos ficar assim. Foi ele quem quebrou o silêncio dessa vez:

-É por isso que falo que você tem poderes mágicos. Acho que não conseguiria desacelerar pra respirar tão fundo e olhar cada detalhe dessa paisagem sozinho ou com outra pessoa. - Ele não olhou pra mim ao dizer. Eu estava olhando pra ele.
-Conseguiria sim. -Eu disse mais do que por modestia.
-Pode ser. -Ele deu de ombros. -Mas no momento é você quem tem esses poderes.
-Então você tem me usado esse tempo todo só por isso? -Brinquei
-Sim! É o que mereço como recompensa por te salvar sempre. -Agora sim ele olhou pra mim. Sustentei o olhar, mas dessa vez com menos convicção do que das outras vezes. Não respondi de imediato. Sorri apenas por pensar nas vezes que ele me salvou e que de certa forma, o que ele disse tinha cabimento.
-Como hoje. -Eu concordei, voltando a olhar para o mar.
-E sempre que precisar. -Ele me empurrou com os ombros.

Naquela hora só conseguia pensar que no momento em que ele arrumasse uma namorada de verdade, ele não estaria exatamente "sempre" cuidando de mim. Ele teria que cuidar dela! Pensei também que meu namorado teria motivos para ter ciumes dele, caso eu tivesse um... E como se ele escutasse meus pensamentos ele resolveu dizer:

-Por enquanto vamos só aproveitar isso. - Disse ele com um sorriso se referindo ao nosso momento junto.

28/12/2016

Falta de Luz no Final da Tarde



Versão dela

Um dia faltou luz no meu prédio. Era final de tarde e tudo estava sem energia fazia só uns 20 minutos. Eu já tava entediada sem saber o que fazer. Meu celular tocou.


-Oi. - Atendi com um sorriso tímido no rosto ao ler o nome dele na tela do meu celular.
-Voce nao estava lá. -Ele disse.
-Que?
-No parque. Na ponta.
-Eu precisava terminar um job. - respondi me acomodando do no sofá, ainda feliz por estar falando com ele.
-”um job” - ele me imitou.
Apenas resmunguei “uhm”
-Entao está em casa? - ele parecia cansado agora.
- sim. Ainda ta correndo?
-Nao. Subindo a escada.
Não respondi. Ele também nao. Eu queria dizer alguma coisa mas não sabia o que. Quanto resolvi perguntar algo ele perguntou outra coisa por cima. Nos rimos.
-Pode perguntar. - ele disse
-Nao, não era importante. O que vc perguntou?
- Fala! Pode perguntar. Quero ouvir vc me perguntar.
-mas não é nada de mais garoto! - eu estava sem graça
-ok. Mas, primeiro as damas.
Respirei fundo. No fundo eu gostava desse jeito dele de ser insistente comigo.
-Como estava o por do sol hoje? -perguntei
- sem luz, já que você não tava la. -ele respondeu depois de alguns segundos.
Levei o mesmo tempo pra responder, fingindo não ter ligado para a resposta:
-Por isso queria tanto que eu perguntasse né? Já tava com a resposta pronta!
Ele deu uma pequena risada e respondeu:
-Quem sabe?!
Acontece que eu havia gostado de ouvir só porque veio dele. Definitivamente, eu estava apaixonada e tinha que admitir.
-ainda está aí? - ele perguntou
-Uhum
-Lembra da nossa conversa sobre entrar na vida de alguém?
-Claro. - eu respondi delicadamente. Eu já imaginava o que ele iria fazer.
-Voce abriria a porta pra mim?
Eu sabia que queria dizer sim. Mas não sabia se estava pronta pra isso. Até porquê, aquela pergunta carregava com ela muitos significados nas entrelinhas. (Quer ser minha namorada? Posso entrar na sua vida e te fazer feliz?)
-Você...abriria a porta pra mim? Estou aqui na frente.
-Que? -,eu olhei pra porta do meu apartamento que dá no corredor. Completamene desligada de meus pensamentos. Meu coração que palpitava rápido começou a voltar ao normal. “Será que ele só ta ali na frente pedindo pra eu abrir a porta pra ele entrar?”
-É, esse é o meu jeito novo de tocar a campainha.
Fechei os olhos, respirei fundo e controlei a raiva. Desliguei o celular me levantei, me recuperando de tudo para abrir a porta como se nada tivesse acontecido.
Abri.
-Vc desligou sem me dar tchau?- ele perguntou fingindo estar perplexo.
-Porque te daria tchau se ainda falaria pessoalmente com você? - virei as costas voltando para o sofá e deixando a porta aberta.
-o que estava fazendo aqui no escuro e no calor? -Ele perguntou se recostando na porta.
-Pra onde mais eu iria? - estava com mesma cara de tedio de antes dele me ligar
-Nem parece que mora a cinco minutos da praia! - ele caçoou de mim com braços cruzados.
-Bom, já ta escuro. Eu não saio sozinha a noite. - eu não olhei pra ele ao responder. Ele sabia que essa não era uma desculpa valida pra mim.
-Sei. -foi o que ouvi
Olhei pra ele. Ele se desgrudou dá porta e sorriu. Falou enquanto vinha na minha direção e me puxava pela mão para fora de casa:
-entao já arrumou uma companhia pra caminhar na praia. Oh serio? É claro que eu quero caminhar na praia com você. Será.um prazer.
-O que está fazendo? - eu disse fazendo ele parar. - você acabou de correr, ta me chamando pra caminhar?!
-Qual é, eu te pago uma água de coco. -ele sorriu de lado, ainda segurando minha mao.
-Uma água de coco não é pouca coisa! - eu brinquei já que o valor da água de coco na praia de Icaraí já está num preço exagerado a um bom tempo. Tirei minha mao da mão dele com pouca sutileza e disse.- OK.  Você carrega meu celular é minhas chaves.- eu peguei os dois que estavam em cima da mesa de centro.  E quando eu ia fechar a porta, todas as luzes e meu ventilador ligaram novamente.
-Voce não ia desligar tudo? ,-ele implicou comigo num tom de reprovação
-xiiiu! - eu disse para se calar e fui apagar as luzes antes de irmos.




Versão dele




Um dia faltou luz no meu prédio. Era final de tarde e tudo estava sem energia fazia só uns 20 minutos. Pelo menos foi o que o porteiro me disse quando veio pessoalmente abrir o portão pra mim. Estava correndo no Campo de São Bento e pretendia passar o final da tarde com Ela, assistindo filme como ameaçado por mim na semana passada. Já que estávamos sem luz, pensei em outra coisa. Enquanto entrava pela portaria e subia as escadas, liguei pra ela.


-Oi. -  Ouvi a voz dela como se ja esperasse que eu ligasse.
-Você nao estava lá. -Eu disse.
-Que?
-No parque. Na ponte. -Eu subia as escadas imaginando as expressões que ela estaria fazendo. Isso me fazia sorrir.
-Eu precisava terminar um job. -Ela respondeu rápido como se fosse óbvio.
-”um job” - Eu imitei.
Ainda no quinto andar, minha respiração ja estava um pouco mais pesada. Ouvi ela resmungar “uhm”
-Entao está em casa? -Eu disse fazendo uma pausa entre o "então" e o resto da frase para respirar.
-Sim. Ainda ta correndo? -Ela perguntou em um tom que me pareceu realmente curiosa
-Nao. Subindo a escada. -Eu sorri de canto


Ela não respondeu. Eu também nao. Fiquei imaginando o que ela estaria fazendo que não falava, eu queria ouvir a voz dela. Mas eu queria continuar falando com ela até que eu chegasse em frente a porta de seu apartamento. Por isso pensei então em perguntar algo a esse respeito, mas que ela pensasse que eu estava falando de um assunto sério sobre qual ja conversamos. A reação dela seria minha resposta sobre o próximo passo a dar.


No mesmo momento em que perguntei, ela também puxou assunto. Nós rimos.


-Pode perguntar. -Falei
-Nao, não era importante. O que você perguntou?
-Fala! Pode perguntar. Quero ouvir você me perguntar. -Eu realmente gostava de ouvir ela me fazer perguntas.
-Mas não é nada de mais garoto! - Nitidamente ela estava sorrindo
-Ok. Mas, primeiro as damas. -Insisti
Depois de alguns segundos ela perguntou.
-Como estava o por do sol hoje?
-Sem luz, já que você não tava la. -Respondi depois de pensar por uns segundos se dizia o que realmente queria dizer. E disse.
Ela levou o memso tempo para me responder de volta. Dessa vez, seu tom de voz parecia muito certo do que estava dizendo. Talvez ela não estivesse mesmo levando a sério o que eu disse. Quero dizer, se ela tivesse gostado, eu sentiria as palavras saindo dentro de um sorriso como no resto da conversa.
-Por isso queria tanto que eu perguntasse né? Já tava com a resposta pronta!
Eu ja tinha chegado em frente ao apartamento dela. Estava recostado na parede ao lado da porta. Mesmo com a incerteza, me mantive confiante. Respondi com uma risada de canto.
-Quem sabe?!
Ela ficou em silêncio de novo. Olhei para a porta ao meu lado e perguntei.
-ainda está aí? -
-Uhum
-Lembra da nossa conversa sobre entrar na vida de alguém? -Algo me dizia que valeria a pena eu testá-la
-Claro. - Ela respondeu delicadamente. Isso me trouxe a certeza. Ela provavelmente imaginava o que eu ia dizer.
-Voce abriria a porta pra mim? -Disse contendo um sorriso, me posicionando de frente pra porta.


Sobre o assunto do qual eu sabia que ela estava imaginando, eu queria dizer sim. E estava pronto pra isso.Mesmo que essa pergunta que fiz carregasse com ela muitos significados nas entrelinhas. (Quer ser minha namorada? Posso entrar na sua vida e te fazer feliz?)
O silêncio dela, acompanhado da respiração que eu podia escutar me fizeram acreditar que ela correspondia ao que eu sentia. Talvez não estivesse pronta para responder ainda. Se não fosse ssim, ela já teria me dito um "não". Então deixei a cena um pouco menos tensa.


-Você... abriria a porta pra mim? Estou aqui na frente.
-Que? É, esse é o meu jeito novo de tocar a campainha?


Depois de alguns segundos ela abriu a porta. Maxilar contraido, olhar penetrante, nitidamente atordoada com o que eu tinha feito. O celular ainda estava na mão dela, mas ja com a ligação encerrada. Eu estava com o meu no ouvido. Tirei e guardei enquanto disse fingindo estar perplexo e ignorando o estado dela.
-Você desligou sem me dar tchau?
-Porque te daria tchau se ainda falaria pessoalmente com você? - ela virou as costas indo para o sofá e deixando a porta aberta.
-o que estava fazendo aqui no escuro e no calor? -Eu perguntei recostando na porta, olhando ao redor da sala.
-Pra onde mais eu iria? - Ela estava com cara de tédio e evitando olhar pra mim, como se estivesse chateada.
-Nem parece que mora a cinco minutos da praia! - Eu caçoei dela com braços cruzados.
-Bom, já ta escuro. Eu não saio sozinha a noite. - Ela disse a pior desculpa do mundo
-Sei. -Disse desgrudando da porta e sorri. Fui até ela e a puxei pela mão pra fora de casa:
-Entao já arrumou uma companhia pra caminhar na praia. Oh serio? É claro que eu quero caminhar na praia com você. Será.um prazer.
-O que está fazendo? - Ela lutou comigo para nao chegar até o corredor - você acabou de correr, ta me chamando pra caminhar?!
-Qual é, eu te pago uma água de coco. -Sorri de lado, ainda segurando sua mão.
-Uma água de coco não é pouca coisa! - Ela sorriu. Tirou sua mao da minha e disse.- OK.  Você carrega meu celular é minhas chaves.- Peegou os dois que estavam em cima da mesa de centro.  E quando ia fechar a porta, todas as luzes e o ventilador ligaram novamente.
-Voce não ia desligar tudo? ,-Implicou num tom de reprovação

-xiiiu! - Ela franziu a testa para que eu me calar, mas eu reparei que ela escondeu o sorriso. Desligou tudo e desceu comigo até a praia.

01/02/2016

Durma bem, meu amor.



Ela estava conversando com Ele como sempre fazia todas as noites. Algumas vez era um rapido boa noite, outras eram conversas longas e fofas. Naquela noite, eles estavam terminando de acertar detalhes de um projeto no qual estavam trabalhando juntos e os estavam sugando bastante. Ela com certeza estava super cansada, e ele percebia isso (qualquer um perceberia) que estava mais do que ele. A voz dela no telefone era sonolenta, mas mesmo depois de terminar a conversa importante, queria ouvir mais a voz do namorado.

Ele sabia como animá-la e fazer com que ficasse melhor, mesmo em situações em que ela estivesse triste. Neste caso, ela nao estava triste, apenas exausta e apesar dele também estar, tirou a capa de seu teclado enquanto ela dizia que ja estava deitando e se cobrindo pra dormir.

-Tudo bem. Quero que deite e se acomode então. -Ele disse com o tom de voz carinhosa que ela se derretia e nunca enjoava.
-Já estou. -Ela disse com voz sonolenta, mas sorrindo.
-Ta de olhos fechados?
-Com certeza!
-Ótimo... - Ele ficou em silêncio até que Ela o chamou pelo nome pra saber se ele ainda estava na linha e ouviu como resposta, um carinhoso "xiiiiiu. Quero que feche os olhos e só escute."

Ele começou a tocar uma melodia lenta e gostosa de se ouvir. Ele nunca tinha feito isso com ela. Ela sorriu e se encolheu na cama, do outro lado da linha. Ele nem soube, mas estava sorrindo como se imaginasse que ela teria mesmo esse tipo de reação. Ela disse depois de alguns segundos ouvindo:

-Assim eu vou dormir mesmo.
-Mas essa é a intenção. -Ele sorria
-E deixar você sozinho na linha? 
-Não se preocupe com isso tá? Só escute... Eu te vejo amanha.
-Eu te amo.
-Eu também amo você.

Ela realmente se acomodou na cama e ficou quietinha, escutando e imaginando ele tocando até que dormiu antes mesmo dele terminar de tocar a musica. 

Ele chamou por ela, mas ela realmente tinha dormido. E quando ia desligar ouviu gritaria ao fundo. Era uns jovens bebados na rua, passando em frente a casa dela. Ela acordou com susto, viu o celular perto do travesseiro ainda com a chamada em andamento e disse o nome dele,

-Não acredito. -Ele disse com pena
-Você ainda está ai? -Ela estava completamente apaixonada por ele
-Estou, estava ouvindo sua respiração um pouco, antes de desligar, mas aí ouvi uns gritos, achei que acordaria então não desliguei.

Ela só se encolhia mais na cama afundando a cabeça no travesseiro e sorrindo sem dizer uma palavra, tudo ainda com sono.

-Obrigada... -Foi tudo que conseguiu dizer.
-Tente voltar a dornmir, ta bem? 
-Eu vou. Você ja esta deitado?
-Estou.
-Então durma você também. A gente se ve amanha.
-Boa noite minha linda, durma bem.
-Boa noite.

E os dois desligaram juntos, indo dormir com um sorriso no rosto e uma vontade de poderem se despedir pessoalmente. Sorriram mais uma vez, relaxando de vez os corpos. Eles sabiam que tinham um ao outro e um dia isso não seria apenas um vontade, mas um desejo realizado.

13/08/2015

Vai dar tudo certo, Deus sabe o que faz!



Eles tinham acabado de comprar aquele apartamento. Não tinha muitos móveis e os poucos que tinham ainda estavam em lugares provavelmente, não definitivos. Tinham se mudado a apenas uma semana e as coisas no trabalho dele estavam complicadas. Ele precisou despedir um amigo que na verdade o ajudou a crescer na empresa e ainda estava se sentindo mal, conhecia a situação do amigo e não sabia como podia ajudar. No trabalho dela, tudo estava normal e como de costume ela chegava às cinco e meia, tomava banho e ia direto ajeitar a janta e um pouco da casa (que ainda havia muito o que fazer ali).  Ele chegava às sete pra jantar com ela. E então lhe contou como estava se sentindo.  Ela procurou dizer algumas palavras de conforto e distraí-lo com outros assuntos, e conseguiu por um tempo, mas logo ele se lembrou novamente.
Já era tarde da noite quando ela terminou seus afazeres e foi pro quarto onde Ele estava há mais e uma hora. No quarto havia apenas o colchão de casal no chão,  uma cadeira com algumas peças de roupa que ficaram pra passar, um criado mudo ao lado do colchão com um telefone e um relógio  e próximo à janela, o teclado dele, em que ele tocava uma música triste.
Estava ventando forte naquela noite, iria chover durante a madrugada com certeza. A janela estava aberta fazendo com que o frio invadisse o quarto e balançasse a cortina que tinham colocado naquela semana.  Ela entrou no quarto já de camisola e com a caneca de café na mão e um livro. Ao se deparar com aquela cena, apoiou o livro e a caneca no criado mudo, fechou a janela e as cortinas e fez carinho nos ombros de seu marido e deu um beijo em seu pescoço.
- Ainda está triste pelo Carlos?
-Estou pensando como posso ajudar. Me sinto mal em não poder fazer nada pra alguém só me ajudou. Se estou na posição que estou é porque ele investiu em mim.
-Você disse que ele ficou chateado com você?
-É, ele disse que eu poderia fazer mais por ele, se eu quisesse.  –Ele ainda tocava devagar as notas
Ela então o virou de frente pra si, mas apesar de parar de tocar, era como se ainda houvesse alguma melodia no ambiente. Quando ele olhou pra ela, os olhos dela brilhavam e ela sorria como se soubesse de algo que ele não sabia.
-E você pode mesmo. –Ela disse segurando em sua mão e puxando pra perto de si para os dois ficarem de pé.
Ela segurou em uma mão dele e a outra passou pelas costas. Ele fez o mesmo e começaram a balançar juntos.  Ela continuou:
-Vamos orar por ele. Deus com certeza tem algo melhor pro Carlos fora daquela empresa. Não vai desampara-lo ainda mais se orarmos por ele. –Ela encostou a cabeça no peito de seu marido e subiu em cima de seus pés para deixar que ele conduzisse os dois ao som da melodia que estava ali acalmando o coração dele, como se alguém ainda estivesse tocando. -Olha só pra gente, pra nossa casa... Aos pouquinhos tudo se acertou entre nós, aos pouquinhos tudo está se acertando aqui pra casa, não é? Orar sempre resolve.
Como ele não respondeu nada, ela apenas acrescentou sorrindo:
-Quando não podemos fazer mais nada, ainda podemos fazer duas coisas: Orar e confiar em Deus. –E sorriu por lembrar-se de uma época em que precisou mesmo fazer isso. –Eu sei que o Senhor vai te dar uma dica de como ajudar o Carlos, meu amor. –E finalmente olhou pra ele de novo. Ele sorriu, acariciou seu rosto e a beijou.
-Não fica triste ou se culpando por isso. –Ela também fez carinho nele. –Carlos vai ver que você é grato pelo que fez por ele.
Eles pararam de se balançar e ela já não estava mais sobre os pés dele. Ele sorriu deu um sorriso de canto, mas ainda não disse nada. Ela foi até o colchão e se sentou perto do criado mudo. Pegou o livro que trouxe consigo e o abriu, ainda com aquele sorriso de quem sabia de algo bom, mas não podia contar tudo. Ele ficou parado, só observando-a.
-“Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para voz dar o fim que desejais” Jeremias 29.11 –Ela olhou pra ele. –Ele sabe o que faz! Levou o Carlos até lá pra te ajudar a crescer na empresa e colocar na vida dele, um homem de Deus, lindo e dedicado (que por sinal é meu marido) –Ela ri. –Mas quem sabe porque ele saiu agora? Deus tem planos pra vocês dois. Ele sabe o que faz! Vai dar tudo certo, ta bem? Pra você e pra ele! –Ela pegou a caneca e bebeu um gole do café, sem tirar os olhos dele.
Ele sorriu de verdade agora e foi até Ela. A abraçou, disse que a amava e por isso tinha se casado com ela, se jogou em cima dela, a encheu de beijinhos e riram. Por fim, ele se sentou recostando na parede envolvendo ela que estava recostada nele, ambos já cobertos. Depois de um tempo ele perguntou baixinho.
-Ta ouvindo? –Ele fazia carinho nela
-To. Começou a chover. –Ela sorriu de olhos fechados, já com sono, sentindo o carinho. Ela amava o barulho de chuva.

-Não. Ainda parece que tem uma melodia no ar. –Ele ri como se aquilo fosse uma besteira.

18/06/2015

Uma das Primeiras Brigas



Eles tinham brigado fazia uns 30 minutos.  Na verdade já estavam estranhos um com o outro à alguns dias e Ele quis conversar. Marcaram num café que tinha perto do curso em que ela estudava a noite, assim, quando terminasse a aula dela, ele a estaria esperando lá. Depois a levaria de carro pra casa.
Discutiram sobre qualquer coisa boba: Não dar atenção quando prometeram dar, não atender algumas ligações, não falarem o que estavam sentindo... Ambos sabiam que estavam errados. No fundo sabiam.
Ela saiu de la sem tomar todo o chocolate quente que tinha pedido, dizendo que pegaria o ônibus mesmo, que ele não precisaria se preocupar.
-Mas está chovendo...! –Ele disse mas não completou a frase.
-Não sou de Papel. Eu trouxe guarda chuva. –Ela falou assustada com o trovão alto que ecoou entre a fala dele e a dela. E saiu.
Ele apoiou os cotovelos em cima da mesa e segurou a cabeça entre as mãos respirando fundo. Sabia que não adiantaria ir atrás dela naquela hora, mesmo querendo fazer isso. Ela não estava só irritada. Por algum motivo estava chatiada, chorosa... Então achou melhor dar um tempo pra ela se acalmar e então falaria com ela, ainda naquela noite!
Ela já tinha tomado banho e trocado de roupa. Estava séria, assistindo sua série pelo computador, em seu quarto. Ouviu a campainha tocar, mas seus pais e irmã estavam em casa, poderiam atender. Alguns minutos depois ela percebe que alguém está parado em frente a porta de seu quarto, que estava aberta. Ela olhou e viu que era Ele e afundou o rosto nas mãos. Ajeitou o cabelo, respirou fundo e se virou pra ele sem dizer nada, nem fazer mais nada.
Ele entrou no quarto de vagar:
-Gosto desse episódio. O final é bem... bonito.
Ela não respondeu. Só sorriu de lado porque sabia como terminava o episódio. Com o casal dizendo que estariam juntos sempre e se ajudando, mesmo que tivessem que enfrentar a situação de que não poderiam ficar juntos. Com uma musica de fundo super romântica pra fazer qualquer um se emocionar.
Ele se ajoelhou pra ficar na altura dela que continuava sentada e disse segurando sua mão fazendo carinho:
-Eu sei que fiquei mais tempo com outras pessoas do que com você essas duas semanas. Foi questão de necessidade, mas... Eu sei... eu devia ter dado um jeito de te ver pelo menos no fim de semana, de te ligar a noite...  Me perdoe, eu não sou e nem vou ser perfeito sempre. Mas preciso que você me diga quando não estiver feliz, quando achar que algo está errado. Lembra que prometemos isso?
-Eu sei. –Ela respondeu de cabeça baixa. –Eu só não queria parecer que estava querendo te sufocar, não quero ser possessiva! Me desculpe por isso. Me desculpe por não atender às suas ligações só porque não atendeu algumas minhas.
Ele levantou a cabeça dela para que pudesse olhar em seus olhos e com seus olhares e sorrisos, sem dizer mais nada... Se perdoaram e combinaram de pararem de briguinha.
A chuva tinha diminuído, mas ainda havia barulhos de trovoadas distantes e então ele sorriu:
-É o clima que mais gostamos. Está chovendo pela primeira vez esse mês e não estamos aproveitando? Não aproveitamos la no café!?
Ela sorriu triste por ter que concordar com ele. Ele ouviu a música do episódio que indicava que já estava chegando no final e como sempre, teve uma ideia.  A levantou pela mão e a puxou pra perto de si. Com uma mão em  sua cintura e a outra segurando a mão no ar começou a dar alguns passinhos de leve com ela, no ritmo da música do seriado. Ela riu:
-Sua mão tem ser nas minhas costas, não na minha cintura. –Ela falou consertando ele que apenas sorriu sem desviar os olhos dela.
Mas Ela mudou logo de posição. O abraçou pela cintura e encostou sua cabeça no peito dele. Ele a envolveu e ambos só aproveitaram aquele momento, ouvido o som da chuva e de alguns trovões ao longe... a música do episodio que estava chegando ao final e sentindo suas respirações. Ela olhou pra ele sem se desgrudar:
-Obrigada por vir atrás de mim e se desculpar primeiro. Me desculpa por ter saído de la do café... Eu chorei no ônibus por ter feito isso. Mas não tinha mais como voltar, e... e quando cheguei em casa, nem te liguei!
-Tudo bem. –Ele fazia carinho nela enquanto ainda se balançavam. –E eu não ia dormir brigado com você né?! Sei que se eu tivesse feito algo assim, você também viria até mim. –E deu em beijo em sua cabeça. –Eu te amo. Ta? – E a fez olhar pra ele. –Ouviu?
-Sim. Eu também amo você. Muito! –Ela disse sorrindo.
-É? –Ele desceu suas mão até a cintura dela e ela se desgrudou um pouquinho dele.
-É. Muito, muito. –E riu e voltou a abraça-lo forte e se recostar nele.

E ficaram assim. Dançando a música que só eles ainda escutavam, porque a do episódio já tinha terminado.

17/06/2015

Tardinha chuvosa e eles 3



Era um sábado chuvoso e frio. Estava de tardinha e o barulho da chuva era agradável e apropriado pra se estar juntinho de quem ama.  Estava um tempo daqueles que raramente vivemos em que tudo parece agradável e feliz, sem preocupação alguma na cabeça ou coisas a resolver. Ela e Ele estavam em casa e finalmente tinham terminado todos os afazeres. A louça do almoço já estava lavada e a cozinha arrumada. Os móveis estavam sem pó e a bagunça da semana já tinha sido organizada. Tudo foi feito de manhazinha porque ambos tinham planejado passar a tarde e a noite juntos fazendo o “nada” deles, ou vendo filmes na tv. Pois na sexta não puderam fazer a noite de filmes como faziam desde a época em que eram apenas namorados.  Ele tivera que ficar uma hora a mais no trabalho e depois, ainda ficou um tempo na internet até tarde pagando contas que estavam a ponto de vencer e respondendo e-mails que já deveriam ter sido respondidos. Mas naquela sábado a tarde tudo estava resolvido e eles só queriam curtir o momento juntos, que quase não tiveram naquele mês.

Ela estava de 27 semanas de gravidez e por isso assim que se sentou no sofá, sentiu chutes bem fortes. Ela riu e colocou a mão sobre a barriga e chamou seu marido. Ele estava fechando as cortinas da sala para ficar mais escuro e perguntou ao ouvi-la chamando:
-Que foi? –Ele se virou e viu o sorriso no rosto dela. Uma mão em cima da barriga e outra esticada chamando por ele com ansiedade.
-Anda, vem aqui.  Ele está se mexendo de novo.
Ele correu e se ajoelhou na frente dela pra ouvir e sentir.

-Ei garotão, você está agitado hoje é? –Ele falou animado
-Será que ele ouviu o barulho da chuva? Está mais forte agora. –Ela sugeriu
-É a chuva é? Gosta da chuva também? –Ele fez carinho desta vez na barriga e ele se mexeu mais forte de maneira que Ela sentiu um desconforto. –Ei, Josh, não se mexe tanto não que se não a mamãe sente dor aqui fora.  Ta bom?
O bebê parou de se mexer e quando pareceu que tinha sossegado, Ele se levantou pra preparar o filme que iram ver.

-Ah a pipoca, como íamos esquecer dela? Que absurdo! –Ela riu e se levantou pra ir fazer.
Quando voltou com os dois baldes de pipoca na mão estava com atesta franzida.
-Ele ta ancioso hoje hein. –E sorriu de lado. –O que não mexer durante a semana, está mexendo hoje.. Chutando... –Ela se sentou.
-Tive uma ideia. –Ele apoiou os baldes de pipoca nos puffs onde esticariam os pés e segurou na mão de Ela.
-Ah você não quer que eu levante de novo né? –Ela reclamou, sabendo que teria que levantar.
-Vem, ele vai gostar. Vocês dois. –Ele a ajudou a levantar e a fez se sentar à janela do quarto deles, onde perto, tinha um teclado. Quando ele se sentou em frente o teclado e o ligou, Ela sorriu e se acomodou com a mão sobre a barriga.

E ele começou a tocar. Uma música lenta e gostosa, feliz e que fazia uma harmonia maravilhosa com o barulho da chuva la fora.
Ele virava a cabeça pra olhar nos olhos de sua esposa que ainda estava sorrindo, olhando pra ele. Ele também sorria e a olhava com doçura. Na segunda vez que ele olhou pra ela, a viu gesticulando e mexendo a boca ao sussurrar “Está funcionando”.
Então Ela se levantou de vagar e foi até seu marido. Colocou as mãos no ombro dele e fez carinho em seus braços e cabelo. Se apoiou nele e ficou assim, apreciando aquele momento até que terminasse de tocar a música.


Quando ele terminou, se virou pra ela e se olharam sem dizer nada, mas dizendo muitas coisas. Ele beijou a barriga dela,  e ela segurou o rosto dele e o beijou.

14/05/2015

Surpresa na Sexta de Filmes



Ele passou pela recepção da empresa e se despediu da recepcionista como sempre, simpático.

-Tchau Juh. Bom final de semana, e traz um pedaço de bolo pra mim na segunda. Sabe que eu adoro os bolos que você faz! -Disse sorrindo
-Se aquelas crianças deixarem sobrar alguma coisa... -Ela falou depois de uma gargalhada.-É sempre assim: Eu faço bolo pra comemorar o aniversário do menino e ele e os coleguinhas dele comem até o guardanapo!
-Eles que estão certos! -Ele sorriu indo em direção ao elevador, que ficava a menos de um metro do balcão da recepção. -Até segunda Juh.
-Até segunda, descance! -a recepcionista respondeu atendendo ao telefone, mas imediatamente acenou antes que ele entrasse no elevador e cochichou tampando o fone. -Deixaram pra te entregar só quando você estivesse saindo. -E deu um sorriso maroto pra ele.

Ele franziu a testa ao pegar o pequeno envelope apenas com o nome dele por fora. -Obrigado. -Disse e apertou o botão chamando o elevador que nem demorou. Abriu o envelope e enquanto descia os andares até a portaria do prédio, lia o bilhete que dizia:

"Mudança de planos! A noite de filme será na minha casa de novo. Entre pelos fundos. Não me chame em nenhum momento e não me procure, aparecei na hora certa. Apenas entre pelos fundos, sente e aproveite!"

 Ele sorriu. Sabia muito bem de quem era aquela letra e do que se tratava. Toda sexta, desde quando eram amigos, ele e Ela faziam de tudo pra assistirem a filmes ou acompanhar uma série juntos e virar a madrugada conversando. Intercalavam, uma semana na casa dele e outra na dela. Semana passada havia sido na casa dela e ele ja tinha ajeitado a casa dele pra recebe-la. Ele saiu do elevador, guardando o envelope em sua bolsa e pensou enquanto ia até onde estava estacionado seu carro 

"O que Ela está planejando, ela não é de mudar assim... Me deixou um bilhete... Veio aqui na empresa e nem falou comigo, nem nada... Ela está aprontando alguma..." Ele sorriu porque sabia que Ela sempre tinha alguma surpresinha pra fazer, e ele amava!

Ele ia ligar, mas preferiu manter o suspense. Foi pra casa, tomou banho, pegou as coisas que eles usariam pra noite de filmes e foi pra casa dela. 

Ela ja estava com tudo preparado! Como combinado de sempre às oito, ele estava chegando. Ela ouviu ele estacionando o carro em frente à sua casa e foi conferir pela janela do quarto que dava pra rua. Correu pra conferir se tinha mesmo trancado a porta da frente, pra garantir que ele entraria pelos fundos.

Ele nem cogitou entrar pela frente, mas estranhou tudo estar apagado. Deu a volta e foi entrando, ja era de casa. Seu coração estava um pouco acelerado por conta da anciedade de saber se Ela tinha mesmo aprontado alguma coisa. Com a sacola na mão recheada de doces, biscoitos salgados e milho de pipoca (porque sabia que ela amava pipoca e na sexta passada não comeram porque o milho na casa dela havia acabado), ele chegou no jardim dos fundos com os olhos arregalados sem entender exatamente o que via montado no deck que dava acesso pra sala de jantar, mas não teve tempo de pensar muito. Uma música la de dentro começou a tocar. Enquanto ele ouvia a letra, fez exatamente o que no bilhete, ela tinha escrito, pois Ela o conhecia e sabia que ele iria querer procurá-la e chamá-la e não prestaria atenção na música toda, e nem aproveitaria do ambiente até que ela aparecesse.

A música que tocava era "Coração Apaixonado" na voz de Bruna Karla e o deck estava com uma mesa de jantar arrumada pra dois, debaixo da parte coberta. Com velas em cima da mesa, pisca-pisca de cor única nas astes e no telhado do deck, além de pisca-pisca colorido dentro de garrafas de vidro espalhadas, para iluminar o ambiente.

Ele definitivamente não esperava por aquilo, porque ela estava fazendo isso? Sua família estava em casa como das outras vezes que ele ia ali? Eles ajudaram ela a preparar isso? Ele estava mesmo querendo saber onde Ela estava, queria vê-la! 

Sentado diante daquela mesa tão bonita e prestando atenção na letra da música, sem conseguir tirar o sorriso -provavelmente idiota- do rosto, ele a viu surgir na porta que que dividia a sala de jantar e o deck, quando o refrão começava tocar pela segunda vez. Ela estava arrumada como sempre ao recebê-lo nas sextas de filmes, mas ele a via como uma princesa entrando num baile. Ela sorria, meio animada por estar fazendo aquilo, meio envergonhada... Ele se levantou e foi até ela.

Enquanto Ela espiava a reação dele e ouvia a música, repensava mil vezes se não deveria ter se arrumado melhor. Até que se convenceu de que ela queria que fosse algo simples e a decoração ja estava deixando tudo formal de mais. Respirava fundo e estava nervosa, parecia que era a primeira vez que jantariam só os dois. Ela estava feliz de tudo estar saindo como planejara. Quando percebeu que o refrão iria repetir, ela apareceu pra ele. Sorriu e sentiu seu coração acelerar quando o viu se aproximar, olhando em seus olhos com aquele sorriso que ela tanto gostava.

-Você é o melhor presente que ganhei nesses últimos anos! -Ele disse fazendo carinho em seu rosto e cabelo. -Quero ser seu amigo pra sempre -e sei que vou ser! -Ele riu. -Eu vou abrir mão do que eu puder de novo e de novo se for pra caminhar com você! E isso aqui... -Ele olhou pra decoração e voltou a olhar pra ela. -Ou uma série de episódios de série ou vários filmes seguidos... Gosto de estar com você.

Ela só não estava em forma líquida porque seu estado solido não é do tipo que se derrete no sentido denotativo, mas era assim que estaria se fosse. Não disse nada, apenas e ria de nervosismo. Ele concluiu segurando seu rosto e falando num tom divertido:

- Eu que amo você. Obrigada por isso, ta? Você. É. Linda! -Ele deu um selinho nela. -Minha linda. -Os dois riram. Ele a abraçou pela cintura e a encheu de beijos pelo rosto e pescoço -mais fazendo cócegas do que beijando.

-Chega! -Ela ria. Fez carinho no cabelo dele o admirando por alguns segundos e pegou em sua mão.-Vem, vamos comer! Ainda temos uma série pra terminar, lembra?
Alice Leite


03/11/2014

"Take Care"




Quando ele me disse ao telefone "Não desanima não" foi em tom de pedido, daqueles que você pensa duas vezes antes de recusar. Respirou fundo e continuou com um "Please, ta bom?! Vai dar tudo certo." Do outro lado da linha, eu apenas sorri de lado apertando os lábios. Eu não tinha como negar um pedido desses. Nitidamente, pela voz dele, ele não tinha o que dizer, sabia muito bem como eu me sentia. Devia estar sentindo ou passando pelo mesmo que eu, mas não queria saber que eu estava pra baixo. O meu sorriso foi pelo mesmo motivo: Eu ja tinha dito algo semelhante pra ele, eu ja pedi pra que ele não deixasse de sorrir, "por favor". Porque ele sorrindo me anima. Então me vi nele, falando aquelas palavras pra mim. Pelo tom da sua voz eu percebi: ele queria me "ver" bem tanto quanto eu o quero "ver" bem, por isso sorri e fiquei um pouco mais esperançosa com tudo.


O que nenhum dos dois sabiam é que do outro lado da linha, ambos queriam fazer mais do que dizer aquelas palavras simples. Ele estava com o coração apertado em não poder fazer mais pra ajudar Ele gostava da voz estérica e rápida que ela tinha sempre que contava alguma novidade feliz. Isso o fazia rir sozinho. Ele gostava, mas ouvia a voz dela tão pra baixo o fazia quere tê-la em seus abraços, abraçar e dizer que ele estava ali com ela. Mas ele estava numa situação tão complicada quanto a dela e estava longe demais para abraçá-la. Ele só pode dizer que ela aguentasse firme, que não desanimasse, tudo daria certo!
Ela pareceu mais disposta só or ouvir algo da parte. Ela queria poder ver a expressão dele. Queria dizer o quanto ele se importar ja lhe dava ânimo. Ela queria abraçá-lo, mas não podia. Então ela sorriu, mesmo sabendo que ele não estava vendo e só agradeceu pelas palavras em um tom que ele percebeu ser mais firme e provocado por um sorriso. Ele sorriu também, mas ela não soube.
O tom da voz de ambos ao se despedir era nítido de quem cuida, mas só eles em seu particular, sabiam que queriam dizer mais do que disseram:

"Take Care"
"Take Care"
Alice Leite

17/03/2013

Tocando Depois do Culto


 Todos já tinham ido embora, ou quase todos. Os poucos que ainda estavam na igreja estavam espalhados em trios ou duplas conversando a ponto de ir pra casa, se preparar para voltar à noite. Mas Ele ainda não tinha ido. Resolvera ficar mais um pouco, tocar...
 Em uma das salas da igreja, também havia um piano. Era usado em pequenas programações ou musicalização com as crianças. Ficava sempre aberto para eventuais ensaios também. Ninguém estava usando a sala ou iria usar. Ele entrou, fechou a sala, se sentou em frente ao piano e o abriu. Olhou para aquelas teclas com um sorriso e se preparou para começar a tocar.
 Ela também não tinha ido, apesar de ja ter se despedido dele, a muito tempo. Tinha encontrado uma moça que a muito tempo fora sua "tia" no tempo em que era do grupo das crianças, ali na igreja, e ficou conversando por um bom tempo com ela. Quando passou pelo bebedouro para beber água antes de ir, ouviu a música que ultrapassava as janelas daquela sala. Era uma música calma, gostosa, que a inspirava a dançar. Como em desenhos, o personagem era levado por um cheiro gostoso de comida quentinha até a mesma, Ela foi levada até aquela sala.
 Sorriu e não exitou em entrar ao ver que era o namorado quem estava tocando, mas entrou devagar para que ele não reparasse. Ela ja tinha o visto tocar, várias vezes, mas sempre acompanhado por outros instrumentos, no máximo, um curto solo no teclado, em alguma música de sua banda. Foi se aproximando do piando quase de olhos fechados, imaginando-se dançando ao som daquela melodia. Ela conhecia aquela música.
 Ele tocava de olhos fechados quando Ela se apoiou no piano, o que a fez entrar definitivamente em estado de êxtase ao juntar aquela melodia, sendo tocada por seu namorado que o fazia com todo seu ser, com prazer. Dava pra perceber que não tocava apenas para si, por ser uma coisa que gostava de fazer. Era mais do que isso, dava pra se notar que era como se estivesse se apresentando para o mais importante dos Reis.
 Ela fechou os olhos para se imaginar dançando em frente a esse Rei também. Ele abriu os olhos. Se surpreendeu com a presença dela, ali, mas não parou de tocar, estava quase terminando. Deixou que seus dedos dançassem sobre as teclas perfeitamente diminuindo o ritmo até o último toque, até o último acorde, e então ela abriu os olhos. Seus olhos se encontraram. Sorriram sem dizer nada.
 Ele estendeu a mão pra ela, ela estendeu de volta, e de mãos juntas ela finalmente disse:
  -Eu sempre quis que tocasse pra mim, pra eu ver como seria a sensação, mas... -Ela desviou o olhar, percorrendo um espaço da sala e voltou-se para ele. -Não teria sido melhor do que agora, do que você tocando pra Ele, sabe?
  Ele sorriu. Ela continuou:
  -Eu ficaria a tarde toda ouvindo. -Ela deu de ombros.
 Ele aproveitou que ainda estava de mãos dadas e a puxou de leve. Ela deu alguns passinhos para chegar perto dele e sentar ao seu lado, e então ele a beijou.
 Se olharam com carinho e depois ele sorriu dizendo abruptamente ao se virar para o piano de novo:
  -Quero tocar mais, é melhor. -Ele deu mais uma risadinha. -O que a senhorita quer ouvir? "Um Deus tão Grande" ?!
  -Depois de "Ele é Exaltado"... Claro! -Mas Ele ja estava tocando, mesmo antes dela responder.

Alice Leite